Aula o Mindset do Emergencista: Inspirese SP

Para ouvir: Are you gonna be my girl, Jet

E pra começar essa missão de inspirá-los sobre a nossa carreira na Medicina de Emergência, vou contar pra vocês, a partir da minha vivência, como é que pensa um Médico Emergencista. O que faz essa especialidade ser única. Afinal, o que é um médico emergencista, onde eles vivem, o que eles comem, como eles dormem? E olha, existe uma lenda que não dormimos….

Bom,

Somos diferentes:

Pra começar nossa especialidade é aquela que precisa estar preparada para receber pacientes a qualquer momento. O Departamento de Emergencia não pode fechar nunca! Não tem feriado, não tem jogo da final, não tem final de semana. Porque as pessoas não escolhem quando vão ficar doentes, sofrer um trauma, ou ter um infarto…

Qualquer, com qualquer coisa a qualquer hora. 

Atendemos pacientes de qualquer idade, de zero dias a mais de 100 de idades, com qualquer queixa, trauma, infarto, sepse… Qualquer causa AGUDA, é nossa aérea. Foi daí que surgiu a famosa frase:

Somos os 15 minutos mais interessantes de todas as outras especialidades. 

E enquanto as outros especialistas estão sempre se perguntando o que esse paciente tem. Nós Emergencista primeiro nos preocupamos com:

O que o paciente precisa?

Agora, em 5 minutos, em uma hora… Muitas vezes o diagnóstico especifico vai ser muito secundário em nossa avaliação e ação. Queremos primeiro saber o quão grave o paciente está para agirmos.

Precipício

Eu gostei muito dessa analogia que o Dr Peter Rosen, um dos pais da Medicina de Emergencia mundial, usou em “The biology of Emergency Medicine” para o Journal of the American College of Emergency Physicians em 1979: o papel da Medicina de Emergencia é pegar o alpinista que está caindo de um precipício, e devolver ele ao topo, tão seguro quanto conseguirmos deixá-lo, mas não necessariamente devolver ele para a segurança da terra firme, assim como também não importa o que fez ele cair… Nesse momento é mais importante tirar ele do risco iminente de morrer da queda, do que saber se a corda rompeu ou se ele foi jogado.

Nesse mesmo parágrafo, dr Rosen fala também que uma das característica do Médico Emergencista é lidar com vários pacientes aos mesmo tempo.

SUS

Um pensamento perfeito para quem quer trabalhar no SUS. (risos) Essa não foi uma foto tirada por mim, entrei no google e digitei pronto socorro. Essa é a realidade da maioria das emergências do Brasil. 

Nós precisamos fazer o nosso melhor, com o que nós temos. O sistema precisa mudar. Precisamos melhorar muito. Mas, enquanto isso, o paciente precisa ser atendido. Então acho bem interessante como a medicina de emergencia pode ter suas peculiaridades de acordo com cada país, ou região… 

Meu plantão começa assim: primeiro eu tenho em mente que qualquer coisa pode acontecer. Pode chegar um ou dois pacientes parados ao mesmo tempo. Um trauma grave. Enfim, eu preciso ter isso em mente, principalmente quando estou na sala vermelha porque nós precisamos de espaço. Então meu segundo foco é dar alta o mais rápido possível. Ou alta pra casa, ou internar na enfermaria ou transferir o paciente para UTI. Então durante a passagem de plantão vou tendo uma ideia da gravidade e das prioridades dos pacientes, já vou corrigindo as instabilidades e tomando decisões. E então as demandas vão aparento junto com os pacientes que já estão lá. A enfermeira da porta vem me mostrar um ECG de um paciente que está com dor no peito. Saiu a vaga de UTI e a enfermeira quer saber se vamos subir o paciente direto, ou se vamos passar na tomografia primeiro. Tem um paciente em insuficiência respiratória que não está respondendo a VNI e a fisioterapeuta quer saber se vamos intubar primeiro ou se vamos subir o paciente para o UTI. Nesse momento o laboratório liga e avisa que o paciente Seu José atendido na madrugada, veio com a troponina de 2,435. E agora? Você tem que lidar com todas essas variáveis. E aqui eu vou um pouco mais além do que o Dr. peter Rosen, nós temos que lidar com todos esses pacientes ao mesmo tempo, mas o que nós somos realmente bons é em priorizar ação. Enquanto vamos avaliando cada demanda, decidimos qual passo vamos seguir primeiro, e então nos deveríamos nos dedicar inteiramente para aquela tarefa naquele momento. Ninguém faz bem mil coisas ao mesmo tempo. 

E eu acho muito interessante como a Medicina de emergencia se aproxima muito dessa filosofia das artes marciais. Nós precisamos de mindfulness, ter ciência e controle do nosso ambiente externo e interno. A emergencia é, na verdade, um caos controlado.

E é interessante ver como existe essa cultua na Medicina de Emergencia, de simulação, pratica deliberada, visando qualidade e segurança ao paciente.

Precisamos treinar, treinar e treinar para sermos o melhor possível para aprender lidar com esse caos controlado, tratando o paciente extremamente grave, para tentarmos amenizar o pior dia da vida deles.

“Eu não tenho medo do homem que praticou 10.000 chutes diferentes, mas sim do homem que praticou o mesmo chute 10.000 vezes.” – Bruce Lee

A Medicina de Emergência é incrível. Eu sou apaixonada pela adrenalina de lidar com os desafios intelectual e emocional de tentar salvar vidas. Nós somos uma tribo com uma energia característica, criatividade marcante e amor sem igual pela medicina. Mas não se enganem, somos bem doidos. 

Medicina de Emergência hoje no Brasil? Sim! Alguém precisa dar o primeiro passo, se algo não acontece no seu pronto socorro, se as pessoas não fazem debriefing após uma PCR, se as pessoas não compartilham os planos da intubação em voz alto com a equipe, comece você. Se as pessoas não se preocupam com a organização do departamento de emergencia, comece você. 

E se você sentir o chamado pela Medicina de Emergência e as pessoas te chamarem de louco… bem…

“Here’s to the crazy ones, the misfits, the rebels, the troublemakers, the round pegs in the square holes… the ones who see things differently — they’re not fond of rules… You can quote them, disagree with them, glorify or vilify them, but the only thing you can’t do is ignore them because they change things… they push the human race forward, and while some may see them as the crazy ones, we see genius, because the ones who are crazy enough to think that they can change the world, are the ones who do.”

Steve Jobs, US computer engineer & industrialist (1955 – 2011)

Meu conselho final é esse: Se você for uma boa pessoa, se for gentil, se usar empatia, se cultivar bons amigos, e acreditar em você mesmo, se for doido o suficiente, e ainda por cima, se for emergencista, com certeza, você pode mudar o mundo! Basta começar! E mudar o mundo, pode ser salvar uma vida, pode ser mudar o seu ambiente ou o mundo inteiro mesmo. E vocês já deram o primeiro passo por estarem aqui hoje.

Obrigada a todos.

Referências:

2 Replies to “Aula o Mindset do Emergencista: Inspirese SP”

  1. Muito bom 👏🏻👏🏻👏🏻

    Tudo que emergencista mais quer é o caos. Mas o caos sem bagunça, nada de baderna, queremos o caos controlado, nada mais atraente e instigante.

    Jule, conseguisse nessa aula colocar um pouco em palavras o que todos que amamos esta especialidade sentimos, certeza que todos nós nos identificamos e muito!

    Bora pro próx plantão 💪

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