REVERT: O trabalho

O que sabemos: Para o tratamento de TSV estável o ACLS recomenda primeiro Manobras Vagais habituais (taxas de sucesso em torno de 5 a 20%) e a seguir, se não houver resultado: Adenosina 6mg e depois 12mg, uma medicação segura, efetiva e com meia-vida muito curta, porém que causa um mal estar angustiante no paciente, aquela sensação de pré-morte.

TSV é algo bem comum nas emergências e garanto que é uma das condições clínicas que mais gosto de tratar. Diagnóstico rápido, à beira leito, resolução rápida e alta hospitalar no mesmo dia.

E agora temos uma opção ainda mais legal: Sem medicação, seguro e aproximadamente 45% de efetividade. Parece algo que vale a pena tentar!

O trabalho: Postural modification to the standard Valsalva manoeuvre for emergency treatment of supraventricular tachycardias (REVERT): a randomised controlled trial

O Que eles queriam saber?

-> Será que modificando a Manobra de Valsava (acrescentando a elevação dos membros inferiores) teremos aumento da taxa de conversão para ritmo sinusal de TSV estáveis no Departamento de Emergência?

O que é a Manobra de Valsala Modificada?

-> O autor e seu time propuseram que elevando os membros inferiores após uma manobra de valsava (soprar um esfigmomanômetro numa pressão de 40mmHg por 15 segundos ou uma seringa de 10ml para empurrar o embolo) aumentaria o retorno venoso e o estímulo vagal no período de relaxamento e com isso aumentaria a taxa de reversão para ritmo sinusal após 1 minuto.

Quem eles incluíram no estudo?

-> Esse foi um estudo multicentrico que aconteceu em 2 hospitais escola + 8 hospitais gerais distritais no Reino Unido.

-> Adultos (>18anos) com taquicardia de QRS estreito e regular (TSV) estáveis.

Como eles randomizaram os pacientes?

-> Eles randomizaram os pacientes para que fossem tratados em dois grupos: Manobra de Valsalva Habitual versus Manobra de Valsava Modificada na proporção de 1:1. Os pacientes foram randomizados por envelopes fechados, que precisavam ser assinados e datados na sua abertura. Pela natureza do tratamento, não foi possível cegar o trabalho.

Quais foram os desfechos medidos?

-> Primário: Reversão para ritmo sinusal depois de 1 minuto.

—> Secundário: Taxa de uso de adenosina e tempo de internação. 

Quem foi incluído?

-> 433 pacientes foram incluídos nesse estudo. Bem distribuídos em termos de caracterizais basais. 

O Que eles acharam?

  • Desfecho primário: Retorno para ritmo sinusal em 1 minuto:
    • Braço da Manobra de Valsalva Habitual: 37/214 (17%)
    • Braço da Manobra de Valsalva Modificada: 93/214 (43%)
    • Diferença Absoluta = 26.2% (p: 0,001)
    • NNT = 3
  • Uso da Adenosina:
    • Braço da Manobra Valsalva Habitual: 148/214 (69%)
    • Braço da Manobra de Valsalva Modificada: 108/214 (50%)
  • Qualquer evento adverso:
    • Braço da Manobra Valsalva Habitual: 8/214 (4%)
    • Braço da Manobra de Valsalva Modificada: 13/214 (6%)
    • Sem diferença estatística
    • NENHUM Evento Adverso Sério

O que isso significa?

-> Os resultados são impressionantes. A Valsava Modificada é segura e pode reverter 43% dos pacientes com TSV. Usando a Manobra de Valsalva Modificada podemos evitar em usar adenosina em 1 de cada 5.3 pacientes que tratamos, o que não é ruim. E esse é um trabalho robusto sem grandes fraquezas. 

Conclusão do Autor: Em pacientes com taquicardia Supra ventricular, a manobra de Valsalva Modificada com elevação das pernas e posição supinada no final do esforço deveria ser considerada como primeira linha de tratamento, e pode ser ensinado a pacientes. 

Isso vai mudar a sua prática?

  • Bem, na verdade já mudou. Desde que tive conhecimento desse trabalho e após o sucesso da minha primeira tentativa e tentativas subsequentes em torno de 50%, me parece uma abordagem razoável. É seguro, de baixo custo e nunca recebemos reclamações dos pacientes. Aqueles que já tinham experimentado o tratamento com adenosina anteriormente agradeceram imensamente a efetividade da Valsava Modificada.
  • Fatores de sucesso: O paciente conseguir entender os passos, manter constante pelos 10 a 15 segundos o esforço. 

Referências: 

  1. Appelboam A et al. Postural Modification to the Standard Valsalva Manoeuvre for Emergency Treatment of Supraventricular Tachycardias (REVERT): A Randomised Controlled Trial. Lancet 2015. [epub ahead of print] PMID: 26314489
  2. Salim Rezaie, “The REVERT Trial: A Modified Valsalva Maneuver to Convert SVT”, REBEL EM blog, September 14, 2015. Available at: https://rebelem.com/the-revert-trial-a-modified-valsalva-maneuver-to-convert-svt/.
  3. Rick Body, “JC The REVERT trial: Dip or doom for SVT in the Emergency Department?”, StemLyns Blog, August 28, 2015, em http://www.stemlynsblog.org/the-revert-trial/
  4. Steve Mathieu, Postural modification to the standard Valsalva manoeuvre for emergency treatment of supraventricular tachycardias (REVERT): a randomised controlled trial, The Bottom line, 11 September 2015, em https://www.thebottomline.org.uk/summaries/icm/revert/

Anatomia das Vias Aéreas

Por FELIPE AUGUSTO M. DE OLIVEIRA
JULE R O G SANTOS
Você indica intubação para um paciente com quadro de pneumonia, em franco desconforto respiratório, mesmo após tentativa de terapia com Ventilação Não Invasiva. Após indicada a intubação, avisada a equipe, você inicia a avaliação tentando identificar indícios de via aérea difícil, que possam te trazer dificuldades durante laringoscopia, passagem do tubo, ventilação de resgate com BVM ou uso de dispositivo supraglótico ou em último caso, necessidade de realização de cricotieroidostomia cirúrgica.
  • O quanto você reconhece da anatomia da via aérea superior? Por que é tão importante reconhecer minuciosamente essas estruturas?

Você sabe que identificar dificuldades e distorções da anatomia te ajuda no planejamento dos seus planos de ação.

Após essa avaliação minuciosa você conclui que o paciente não apresenta critérios para via aérea anatomicamente difícil. Você inicia pré-oxigenação adequada, feito o indutor e o relaxante muscular, você passa o laringoscópio e a visualização é de difícil definição.

Anatomia das Vias Aéreas- revisao jule

Fonte: Google Imagens

Conhecer a anatomia exata da via aérea, é a primeira habilidade necessária para um bom manejo da via aérea na emergência. Assim se você for forçado a usar técnicas de intubação às cegas (principalmente quando temos limites de equipamentos) será com maior segurança, sem correr risco de lesar o paciente e terá maiores chances de sucesso.  Continuar lendo “Anatomia das Vias Aéreas”

POCUS para abscesso – Tem acurácia?

Tradução livre (com autorização) de: Journal Feed: Acesse, assine e se mantenha atualizado: posts diários com resumos e breve avaliação crítica dos principais artigos sobre medicina de emergência.

Escrito por Clay Smith
Leia o original aqui: https://journalfeed.org/article-a-day/2019/pocus-for-abscess-is-it-accurate
Resumo:
O ultra-som a beira do leito (POCUS) não foi melhor do que o julgamento médico quando eles tinham certeza que um abscesso estava presente, mas foi de algum valor em casos duvidosos, embora longe de ser padrão-ouro.

Por que isso é importante?
Nos tempos antigos, costumávamos colocar uma agulha 18 no que parecia ser uma infecção de pele; aspirado de pus significava abcesso; nenhum pus: não era abcesso. O POCUS oferece uma abordagem mais prática e menos danosa para nos ajudar a ver abaixo da superfície. Mas ele é acurado?

POCUS não é exatamente incrível para tecidos moles …
Este foi um estudo prospectivo que avaliou o impacto da ultrassonografia à beira do leito no manejo da infecção de pele / tecidos moles. Em 1.216 pacientes, os médicos estavam incertos se um abscesso estava presente em 8,6% das vezes e tinham certeza  em 91,4% dos casos. Quando os médicos estavam certos, o ultra-som pouco acrescentava à precisão do diagnóstico. Nos 105 pacientes em que o clínico estava incerto, a acurácia diagnóstica da ultrassonografia era fraca: 68,5% sensível e 80,4% específica. No entanto, a conduta foi alterada em 25 desses pacientes. Mas espere… a conduta foi alterada de forma inadequada em 16% (4/25) dos casos. Se você sabe que há um abcesso, por que você usaria o ultra-som? O uso parece mais útil em casos duvidosos. O que eu pego pra mim é que a ultrassonografia pode trazer clareza em casos incertos, mas está longe de ser o padrão ouro.

Assunto também abordado em:
O Emergency Medicine Cases tem um ótimo podcast sobre infecções da pele e dos tecidos moles.

Fonte
Efeito da ultra-sonografia inicial à beira do leito no gerenciamento da infecção por pele e tecido mole no departamento de emergência. Ann Emerg Med. 2019 26 de março. Pii: S0196-0644 (19) 30104-0. doi: 10.1016 / j.annemergmed.2019.02.002. [Epub ahead of print]

Leia no QxMD

 

Tradução Livre: Maycon Willian Bachiega, Residente de Medicina de Emergência ESCS/DF
Revisado: Jule Santos

Como definir hipotensão pediátrica?

Tradução livre (com autorização) de: Journal Feed: Acesse, assine e se mantenha atualizado: posts diários com resumos e breve avaliação crítica dos principais artigos sobre medicina de emergência.

Escrito por Clay Smith

A definição de hipotensão em crianças pelo Suporte Avançado de Vida Pediátrica(PALS)/Suporte Avançado de Vida no Trauma(ATLS) (isto é percentil 5 para a PAS) parece ser uma combinação entre a população da Alemanha e Estado Unidos.

A fórmula de hipotensão é: < 70 + 2 (idade em anos).

(Exemplo: Criança 3 anos de idade, a PAS mínima esperada é 70 + 2×3, ou seja uma PAS < 76mmHg, configura hipotensão para essa faixa etária)

Por que isso é importante?

  • Reconhecer: Você tem que saber reconhecer a pressão arterial alterada numa criança, quando ver uma
  • Repetir: Qualquer medida anormal da pressão arterial em crianças deve ser repetida e confirmado que não é um erro.
  • Acompanhar: intervir e checar posteriormente se houve melhora.
  • Registrar: documente o que você viu e como você abordou a pressão arterial alterada e qual resposta teve após o tratamento.

 

Definir hipotensão não é tão fácil como parece. Se o alvo da pressão arterial está muito baixo, nós podemos subestimar; se estiver muito alto podemos ter um excesso de falso positivos. Qual o ponto de corte correto?

 

Isso depende…

 

Há falta de concordância entre as diferentes normas com base populacional para a pressão arterial pediátrica no quesito hipotensão, que é valor menor que o percentil 5, devido a diferentes aspectos que variam de acordo com cada população; porém há uma convenção de que, em uma certa população, hipotensão arterial é uma pressão arterial menor que o percentil 5. Na base de dados da Alemanha KiGGs o valor em média foi 7mm maior que a média da população dos Estados Unidos. O percentil 5 na base KiGGs pode ser calculado em crianças de 3 a 9 anos com a seguinte fórmula: < 82 + idade = hipotensão arterial, porém não corresponde ao mesmo valor na idade de 10 a 17 anos.

PALS/ATLS usa a seguinte fórmula para hipotensão: < 70+2 (idade em anos). Essa definição do PALS/ATLS caiu entre o ponto de corte da população alemã e norte-americana para o percentil 5 e parece que ameniza as diferenças. Fique atento que essa definição é utilizada para a idade de 1 a 10 anos. Os autores expressam preocupação com o fato de que a definição de 90mm como hipotensão para crianças ≥10 anos pode levar à subtração de adolescentes, de acordo com as normas alemãs e americanas dos percentil 5. Eu acho que está correto; ver figura (platôs PAS para meninas por volta dos 13 anos).

ARTIGO COMPLETOCaptura de Tela 2019-04-25 às 18.40.43

An unambiguous definition of pediatric hypotension is still lacking: Gaps between two percentile-based definitions and Pediatric Advanced Life Support/Advanced Trauma Life Support guidelines. J Trauma Acute Care Surg. 2019 Mar;86(3):448-453. doi: 10.1097/TA.0000000000002139.

Tradução: Maycon Willian Bachiega
Residente de Medicina de Emergência ESCS/DF

Peer Review: Jule Santos

🤓 Medicina Baseada em Evidências é fácil

Tradução livre de: Justin Morgenstern, “Evidence Based Medicine is Easy”, First10EM blog, January 8, 2018. Available at: https://first10em.com/ebmiseasy/


😱 Eu sei que a medicina baseada em evidências assusta a maioria das pessoas. As estatísticas parecem complicadas. Os artigos geralmente estão cheios de linguagem obtusa. As pessoas estão constantemente debatendo pequenos detalhes nos clubes de revistas, o que pode deixar muitos médicos se sentindo inadequados.

Mas posso te assegurar que a medicina baseada em evidências é fácil. Se eu posso fazer, qualquer um pode. A única parte difícil é adquirir o hábito de realmente pegar um artigo e começar a ler.

Sou médico de emergência de um hospital comunitário (baixa complexidade), sem treinamento especial em metodologia de pesquisa quantitativa ou epidemiologia. Tudo o que aprendi sobre medicina baseada em evidências eu aprendi pegando artigos e lendo-os para mim (com alguns insights importantes de pessoas como Jerry Hoffman e Rick Bukata sobre no Emergency Medical Abstracts). Este post discorre sobre a abordagem simplificada que faço quando leio a literatura médica, com a esperança de que eu possa te convencer de que você também é capaz de ter um papel ativo criticando a literatura médica.

 

Passo 1: Como faço para encontrar um artigo para ler?

Se você está apenas começando, sugiro pegar um artigo que outras pessoas também já estejam revisando. Pode ser um artigo escolhido para o seu clube da revista, que foi apresentado em um programa como o Skeptics ’Guide to Emergency Medicine, ou um que você encontrou aqui nos meus artigos do mês. Leia o artigo você mesmo, anote suas conclusões e compare seus pensamentos com as conclusões de outros especialistas que leram o mesmo artigo.

Eventualmente, você provavelmente achará limitado ler apenas os artigos escolhidos pelos outros. Ter acesso a uma lista de pesquisas recém-publicadas permite que você escolha os tópicos mais interessantes para você. Eu atualmente recebo todos os resumos de 47 periódicos diferentes, mas isso pode ser demais para a maioria das pessoas. Basta escolher um ou dois periódicos de maior impacto em seu campo para revisar a cada mês. Você pode optar por receber notificações de novas publicações por e-mail ou inscrever-se no feed RSS da revista.

Se você estiver interessado em um tópico específico, outra ótima opção é configurar um alerta de e-mail no pubmed. Ele exige que você crie uma conta (gratuita) do NCBI, mas é fácil e garante que você nunca perderá um artigo importante sobre um tópico que lhe interessa (como “relações sexuais para o tratamento de nefrolitíase”).

Passo 2: Vale a pena ler este artigo?

Eu uso o título e o resumo do artigo para decidir se vale a pena ler o artigo. No entanto, para economizar tempo, não leio o resumo inteiro. Primeiro, pulo diretamente para as conclusões. Se as conclusões de um artigo não são interessantes, ou não parecem relevantes para minha prática ou para meus pacientes, posso descartar o artigo e não perder mais tempo. Se as conclusões parecem interessantes, vou olhar para os métodos descritos no resumo. Se os métodos são claramente ruins ou irrelevantes para minha prática clínica atual (como estudos em animais), não vou ler o artigo. Se as conclusões forem interessantes e os métodos parecerem razoáveis, baixarei o documento para leitura.

Etapa 3: leia o artigo

À primeira vista, os artigos parecem longos e densos. São intimidadores. Só de percorrer rapidamente um PDF de 16 páginas é suficiente para acabar com o desejo de ler. Felizmente, muitas dessas páginas são supérfluas. Na maioria das vezes, podemos ser muito mais eficientes em nossa leitura, se entendermos a estrutura de um artigo:

Título: Útil (às vezes) para encontrar o artigo na sua pesquisa original, mas basicamente inútil depois disso.

Resumo: Este breve resumo do artigo ajuda você a decidir se o artigo vale a pena. No entanto, os detalhes são muito escassos para nos ajudar a tomar decisões clínicas, então podemos ignorar o resumo quando realmente nos sentamos para ler o artigo.

Introdução: Esta seção fornece informações básicas sobre o assunto. No entanto, os dados apresentados não são o resultado de uma revisão sistemática. Há muito espaço para bias na seção de introdução. De muitas maneiras, a seção de introdução é apenas um resumo das opiniões dos autores sobre o assunto. Se o assunto for completamente novo para você, você pode achar essas informações básicas úteis. Na maior parte do tempo, porém, apenas pulo a seção de introdução.

Métodos: Esta é a parte mais importante de qualquer trabalho de pesquisa.  Bons resultados são inexpressivos sem métodos de pesquisa de alta qualidade. Espere passar a maior parte do seu tempo aqui. A seção de métodos é frequentemente a seção mais confusa, com linguagem esotérica ou jargões, mas uma abordagem simplificada é possível. Voltarei nisso em um minuto. Se os métodos forem muito ruins, você pode se economizar tempo parando de ler imediatamente, porque com uma metodologia ruim é improvável que você seja convencido a mudar sua prática, não importa o que você encontre na seção de resultados depois.

Resultados: Este é o verdadeiro motivo pelo qual você pegou o artigo em primeiro lugar. Você quer saber o que o estudo mostrou, então você terá que ler a seção de resultados. Muitas vezes há muitos resultados diferentes apresentados. Se você está se sentindo sobrecarregado, concentre-se no resultado primário do estudo (que deveria ter sido claramente indicado na seção de métodos).

Discussão: Esta é outra revisão não sistemática da literatura. Os autores comparam seus resultados com estudos anteriores. Assim como a introdução, esta seção representa as opiniões dos autores. Normalmente, pulo a seção de discussão.

Conclusão: essa é a opinião do autor sobre o que os resultados mostram. Neste ponto, você já leu os métodos e resultados e, portanto, já deve ter tirado suas próprias conclusões sobre o artigo. Você não precisa ler as conclusões dos autores, a menos que queira ter um gostinho da subjetividade presente na publicação científica.

Portanto, embora os artigos muitas vezes pareçam muito sobrecarregados, podemos reduzir a quantidade de tempo que passamos lendo se aderirmos às seções mais importantes. Toda a ciência objetiva do estudo é encontrada nas seções de métodos e resultados. As seções restantes adicionam as interpretações subjetivas dos autores, que podem ser ignoradas com segurança na maior parte do tempo.

Aparentemente eu não sou o único que pula grandes pedaços de pesquisas. Uma abordagem muito semelhante à leitura de artigos é descrita no Sketchy EBM:

https://www.youtube.com/watch?v=eSEP2T-xz8g&feature=youtu.be

 

Passo 4: Interprete o artigo (as estatísticas são menos importantes do que você pensa)

A pesquisa médica certamente pode se tornar muito complexa. Os artigos geralmente incluem uma linguagem compreensível somente se você tiver um PhD em estatística. No entanto, na grande maioria das vezes,  é possível se fazer uma avaliação crítica com qualidade usando  apenas algumas perguntas de senso comum enquanto você lê.

Você pode pensar num trial como uma corrida. Nós queremos que a corrida seja justa. Para ser justa, a corrida tem que ter um início justo (todos os pacientes iniciam o estudo no mesmo local), todos precisam realizar o mesmo caminho (todos os participantes do estudo são tratados da mesma forma, exceto para a intervenção), e é necessário ser um final justo (o resultado é medido da mesma forma para todos, sem bias).

Uma estrutura que lembro ao ler artigos é a abordagem RAMMBO:

  1. Recruitment
  2. Allocation
  3. Maintenance
  4. Measurement: Blind or Objective

RAMBBO-critical-appraisal-FIrst10EM

  1. Recrutamento
  2. Alocação
  3. Manutenção
  4. Medição: Cega ou Objetiva

Recrutamento

  • Quem foi incluído neste estudo? Os pacientes do estudo parecem com meus pacientes?
  • O tamanho do estudo é apropriado? (Idealmente, isso deve ser fácil de dizer, porque os pesquisadores descreverão o cálculo do tamanho da amostra).
  • Houve exclusões importantes que poderiam afetar os resultados?

Alocação

  • Os grupos foram semelhantes no início do trial?
  • A atribuição para cada grupo de tratamento foi randomizada? Se a atribuição não foi randomizada, vale a pena considerar quais fatores podem ter tornado os grupos sistematicamente diferentes (confundidores), mas tenha em mente que não é possível identificar todos os fatores de confusão.

Manutenção

  • Os grupos foram tratados de maneira semelhante ao longo do trial (excetuando apenas a intervenção de interesse)?
  • Os resultados de interesse foram medidos para todos (ou pelo menos a maioria) dos pacientes no estudo? (Em outras palavras, os pacientes perderam o acompanhamento, o que poderia afetar a confiabilidade dos resultados?)

Medição

  • Os pacientes, médicos e pesquisadores foram cegados para o tratamento? (O viés é muito mais provável quando as pessoas estão cientes dos grupos aos quais os pacientes foram designados).
  • Ou, os resultados foram objetivos e padronizados? (Em um estudo não-cego, o viés é menos provável com um resultado objetivo como a mortalidade do que com um resultado subjetivo como satisfação com o tratamento).
  • Os danos foram adequadamente medidos?

Essas perguntas simplificadas RAMMBO me ajudam a destrinchar a seção de métodos com questões do senso comum que eu consigo entender. Eles são principalmente destinados a avaliar a validade dos resultados do estudo. Depois que eu termino de ler um artigo, eu gosto de fazer uma pausa e me fazer algumas outras perguntas para ajudar a colocar o trial em seu contexto apropriado:

  • Por que o estudo foi feito?
  • A questão é importante?
  • Alguém tem interesse no resultado?
  • O benefício é grande o suficiente?

Para responder a essa pergunta, é preciso considerar como os benefícios pesam contra danos, mas também o custo que qualquer nova intervenção pode ter.

  • Como este estudo se equipara a pesquisas anteriores?

Na minha opinião, as respostas a essas perguntas são muito mais importantes do que qualquer estatística ou valores de p com os quais você pode sofrer durante a leitura. Sempre considero essas questões antes mesmo de olhar para as estatísticas apresentadas. Embora o conforto com a avaliação crítica exija alguma prática, essas perguntas são relativamente diretas e, penso eu, tornam a avaliação crítica básica fácil para qualquer clínico experiente.

 

Passo 4: use uma lista de verificação

Na maioria das vezes, as perguntas básicas acima são tudo o que você precisa para avaliar um artigo. No entanto, algumas vezes, se um artigo é mais complexo ou se estou abordando uma questão mais importante, quero ser mais completo com a minha avaliação crítica. Nessas situações, recomendo usar uma lista de verificação para ajudar a avaliar todas as possíveis origens de parcialidade em um artigo. Existem muitas listas de verificação disponíveis. Eu geralmente uso as listas de verificação Best Evidence in Emergency Medicine (BEEM):

Mais listas de verificação e ferramentas EBM podem ser encontradas aqui.

Passo 5: Peça ajuda

Embora eu ache que a medicina baseada em evidências é fácil, admito que há alguns aspectos que podem se tornar muito complexos. Como médicos, não faz muito sentido aprendermos tudo sobre epidemiologia. Precisamos ser clínicos experts, não estatísticos. A solução é simples: saiba quando pedir ajuda.

Comece lendo o artigo, mas quando você se deparar com tópicos que não compreende totalmente, peça ajuda. Existem muitos recursos incríveis quando se trata de medicina baseada em evidências. Obviamente, temos a comunidade #FOAMed, com muitos excelentes podcasts e blogs que podem ajudar na avaliação crítica. Eu pretendo atualizar este blog com vários recursos de MBE no próximo ano, então fique de olho em https://first10em.com/EBM para obter recursos adicionais. Alcançar especialistas diretamente também pode ser útil. À medida que me esforcei para aprender sobre avaliação crítica, enviei e-mails para especialistas como Jerry Hoffman, Ken Milne e Andrew Worster em várias ocasiões, e sempre foram recompensados ​​com respostas amigáveis ​​e brilhantes. Especialistas locais como bibliotecários médicos e metodologistas de pesquisa universitários também são excelentes recursos. Por fim, não subestime o valor de uma pesquisa simples no google ou no youtube.

 

Passo 6: Aplique a pesquisa

É aqui que a medicina baseada em evidências pode se tornar complexa. Ler e avaliar artigos é fácil, mas a medicina real baseada em evidências exige que os médicos interpretem as evidências através de uma lente de experiência clínica e com os valores do paciente em mente. A medicina baseada em evidências não é apenas sobre a literatura. “A medicina baseada em evidências é a integração das melhores evidências de pesquisa com experiência clínica e valores do paciente.” (Sackett 2000)

É por isso que você já é um especialista em medicina baseada em evidências. É por isso que é melhor para os médicos lerem a literatura do que os metodologistas especialistas. Embora um estatístico tenha uma visão incrível da matemática do trabalho, é apenas o clínico que pode filtrar adequadamente as informações por meio de sua experiência clínica, explicá-las em termos simples a seus pacientes e tomar decisões que combinem as melhores evidências disponíveis com os dados. os valores do paciente. Isso é medicina baseada em evidências. Essas discussões (que todos nós temos em cada turno) são complexas. Em comparação, ler a literatura é simples, então por que não tentar?

Referências

Sackett D et al. Medicina Baseada em Evidências: Como Praticar e Ensinar EBM, 2ª edição. Churchill Livingstone, Edimburgo, 2000, p.1