Choque elétrico

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Chega para você paciente 43anos, masculino, vítima de choque elétrico, paciente está em grande sofrimento gritando de dor.

SINAIS:

PA: 120x75mmHg, FC: 115bpm, FR: 18irpm, Sat: 98% em AA, Tax.: 36,8C

CONTEXTO: O paciente estava em cima do telhado, quando encostou o ante-braço esquerdo num fio elétrico que conduzia eletricidade do gerador para a casa. Não consegue precisar o tempo, mas com muito esforço conseguiu se soltar. Não teve queda ou nenhum trauma. Agora está com dor excruciante em região de ombro esquerdo.

Você faz exame físico completo. Sumário: pulsos simétricos e presentes, não encontrados sinais de queimadura, perfusão preservada, sem edema visível, dor intensa a manipulação do membro e paciente refere não conseguir movimentar o braço, movimentos dos dedos preservados.

Realizado ECG e mantido monitorização contínua:

Ritmo sinusal, FC: 110bpm, intervalos normais (PR, QTc), sem alterações em ST

Você rapidamente inicia analgesia pesada. E agora? Como prosseguir com a avaliação desse paciente? O que esperar? O que monitorar?

LESÕES POR ELETRICIDADE:

Lesões por eletricidade pode ocorrer em crianças (tomadas domésticas e fios), adolescentes e adultos jovens, redes elétricas fora de casa, por exposição irresponsável, e adultos entre terceira e quarta décadas, trabalhadores com rede elétrica, exposição ocupacional.

A gravidade da lesão depende de múltiplos fatores: o tipo do circuito, da corrente, da resistência medida em amperes, voltagem, duração do contato, o caminho da condução e fluxo.

Geralmente exposições a altas voltagens estão associadas a maior letalidade e morbidade.

Tipo de circuito: Os circuitos elétricos são classificados de duas maneiras:

⚡️ Circuitos de corrente contínua: possuem fontes de tensão e correntes contínuas (que não variam no decorrer do tempo).

Vistos em baterias, carros elétricos, rodovias elétricas. A exposição a essas correntes geralmente causam uma contração muscular forte. E isso pode fazer a vítima ser empurrada para trás e então diminuir o tempo de exposição, mas também causar outras lesões.

⚡️ Circuitos de corrente alternada: possuem fontes de tensão e correntes alternadas (que variam no decorrer do tempo)

Essas são correntes mais comuns (domicílios). Na mesma voltagem, é considerada mais perigosa do que a corrente contínua, porque a amperagem acima da corrente “de soltar” causa um espasmo muscular tetânico. Porque os músculos flexores dos membros superiores são mais fortes do que os extensores, essas contrações puxam a vítima para mais perto da fonte, resultando em maior tempo de exposição.

⚡️⚡️ LESÃO ELÉTRICA: A VOLTAGEM IMPORTA

Lesões elétricas e queimaduras são um problema mundial.

Mais comumente afeta crianças e adolescentes (assim como adultos). [Glatstein, 2013]

Crianças pequenas muitas vezes encontram eletricidade doméstica – então, baixa voltagem. [Arasli Yilmaz, 2015]

Adolescentes (particularmente com baixa capacidade de tomar decisões devido à alta testosterona em relação ao senso comum) podem se expor a altas voltagens fora de casa. [Arasli Yilmaz, 2015; Celik, 2004]

O dano tecidual depende da voltagem, tipo de corrente, amperagem, resistência tecidual e tempo de exposição.

Em geral, a exposição à alta voltagem está associada a maior morbidade e mortalidade. [Arasli Yilmaz, 2015]

Baixa tensão refere-se a eletricidade de até 1.000 volts

Causa mais frequente de queimaduras elétricas.

Na maioria das vezes leva a pequenas lesões e sem complicações graves.

Alta tensão refere-se a > 1.000 volts

Associado ao maior risco de lesões diretas por carga elétrica.

Também associado com maior risco de politrauma associado.

Pode causar tetania muscular devido à incapacidade do paciente de se soltar da fonte elétrica.

💫 LESÕES

As lesões podem variar de leves até ameaçadores à vida.

Todos os tecidos podem ser afetados pela corrente elétrica que passa por eles. [Arasli Yilmaz, 2015]

Parada cardíaca pode ocorrer devido à exposição a alta voltagem

Arritmia cardíaca

Paralisia muscular do diafragma

Anormalidades da condução cardíaca

Alterações ST, bloqueios cardíacos, QTc prolongado, TSV e FA.

A lesão pode progredir ao longo do tempo devido à necrose dos nódulos cardíacos do miocárdio, vias de condução ou artérias coronárias. [Arasli Yilmaz, 2015]

✨Queimadura de pele

Ao contrário das queimaduras térmicas, a aparência visível da necrose pode ser enganosa.

Na superfície pode ter apenas uma pequena área envolvida, mas exister uma lesão extensa.

Geralmente não requerem enxerto de pele: geralmente apenas cobertura parcial ou menos [Alemayehu, 2014]

⚡️ Pode ocorrer síndrome do Compartimento por edema causado por lesão tecidual local.

– Lesão hepática

– Vasoespasmo

– Trombose tardia ou necrose podem ocorrer.

– A formação retardada de aneurisma ou hemorragia também pode acontecer.

– Lesões Associadas

– Lesões relacionadas ao trauma da queda

– Rabdomiólise por destruição tecidual ou síndrome compartimental

⚡️⚡️ Avaliação

Exposição de baixa voltagem

Na maioria das vezes têm apenas pequenos ferimentos (ex, queimadura superficial de 1º grau).

Se não houver características preocupantes (ex, exposição prolongada, pele úmida, história médica preocupante), não há beneficio em testes extensivos ou hospitalização. [Arasli Yilmaz, 2015; Zubair, 1997]

Os ECGs provavelmente não encontrarão nenhuma anormalidade e podem não ser obrigatórios. [Glatstein, 2013]

Pessoalmente, tenho baixo limiar para ECG e curto período de observação em DE.

🌪 Exposição de alta voltagem

O ECG deve ser obtido.

A monitorização cardíaca contínua é recomendada se houver um ECG anormal, a depender da história médica pregressa ou outras características preocupantes (ex, exposição prolongada, pele úmida, perda de consciência).

Estudos laboratoriais básicos devem incluir os níveis de CPK, função renal, testes da função hepática e urinálise. [Arasli Yilmaz, 2015]

Precisa de uma avaliação completa do trauma, incluindo FAST e imagem conforme necessário.

As feridas devem ser cobertas com gaze estéril e pomada antibiótica (a menos que você esteja o transferindo para um Centro de Queimados, caso em que se discuta a possibilidade de transferência, pois muitas vezes preferirão apenas gaze estéril até que sejam capazes de ver as feridas).

As indicações de transferência para o Centro de Queimados terciários são semelhantes às queimaduras térmicas. [Glatstein, 2013]

⚡️ A internação é incentivada em:

Exposição à alta tensão

Presença de feridas de entrada e saída

Instabilidade neurológica

Instabilidade Cardiovascular

Grande área de queimadura

Queimaduras que impedem a hidratação oral adequada

Lesão Elétrica: Queimaduras Bucais

Uma entidade única que afeta crianças (particularmente <5 anos de idade) é queimaduras elétricas devido a um fio ligado em um eletrodoméstico elétrico ou a uma extremidade do cabo de extensão reconectado. [Umstattd, 2016]

O padrão de lesão consiste em queimadura na comissura oral.

Pode levar a resultados ruins, tanto funcional quanto esteticamente.

A natureza de baixa voltagem dessas lesões normalmente poupa os tecidos profundos.

Pode lesionar a artéria labial local e desenvolver sangramento significativo, mesmo que de forma retardada, quando a crosta se desprende. [Zubair, 1997]

🚨

Caso clínico: Iniciado analgesia potente, porém paciente com dor persistente, intensa, e com mobilidade restrita do membro superior esquerdo. Sem sinais de alteração de pulso, perfusão ou edema.

Avaliação cuidadosa do ombro esquerdo: deslocamento-luxação do ombro E 😱😱😱

Realizado redução do ombro

Exame de imagem posterior: fratura cominutiva cabeça umeral

Paciente internado para analgesia, tratamento conservador da fratura, monitorização de CPK, e perfusão do membro

Tradução livre: Jule Santos

Electrical Injury

References

Umstattd LA1, Chang CW2. Pediatric Oral Electrical Burns: Incidence of Emergency Department Visits in the United States, 1997-2012. Otolaryngol Head Neck Surg. 2016 Jul;155(1):94-8. PMID: 27048673. [PubMed] [Read by QxMD]

Arasli Yilmaz A, Köksal AO, Özdemir O, Acar M, Küçükkonyali G, Inan Y, Çelik S, Güveloğlu M, Andiran N, Günbey S. Evaluation of children presenting to the emergency room after electrical injury. Turk J Med Sci. 2015;45(2):325-8. PMID: 26084122. [PubMed] [Read by QxMD]

Alemayehu H1, Tarkowski A2, Dehmer JJ1, Kays DW2, St Peter SD1, Islam S3. Management of electrical and chemical burns in children. J Surg Res. 2014 Jul;190(1):210-3. PMID: 24698499. [PubMed] [Read by QxMD]

Glatstein MM1, Ayalon I, Miller E, Scolnik D. Pediatric electrical burn injuries: experience of a large tertiary care hospital and a review of electrical injury. Pediatr Emerg Care. 2013 Jun;29(6):737-40. PMID: 23714758. [PubMed] [Read by QxMD]

Talbot SG1, Upton J, Driscoll DN. Changing trends in pediatric upper extremity electrical burns. Hand (N Y). 2011 Dec;6(4):394-8. PMID: 23204966. [PubMed] [Read by QxMD]

Celik A1, Ergün O, Ozok G. Pediatric electrical injuries: a review of 38 consecutive patients. J Pediatr Surg. 2004 Aug;39(8):1233-7. PMID: 15300534. [PubMed] [Read by QxMD]

Rabban JT1, Blair JA, Rosen CL, Adler JN, Sheridan RL. Mechanisms of pediatric electrical injury. New implications for product safety and injury prevention. Arch Pediatr Adolesc Med. 1997 Jul;151(7):696-700. PMID: 9232044. [PubMed] [Read by QxMD]

Zubair M1, Besner GE. Pediatric electrical burns: management strategies. Burns. 1997 Aug;23(5):413-20. PMID: 9426911. [PubMed] [Read by QxMD]

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