Residência Médica: um sofrimento inevitável
“Resiliência para manter capacidade de agir, perceber sentido e preservar identidade profissional apesar das adversidades!”
A residência médica é um marco do desenvolvimento profissional, caracterizando a Transformação da Identidade Profissional. E como toda fase do processo de desenvolvimento humano, ela gera dor.
Essa geração de dor é, de fato, inevitável porque envolve viver a residência:
- mudança de papel social
- aumento de responsabilidade
- lidar com instabilidade emocional
- necessidade de adaptação
- desenvolver autonomia
- conquistar independência
- separar emoções pessoais
- entender o sistema real
- equilibrar prioridades
- transcender interesse próprio
E passar por essa evolução acontece, independente das condições basais do programa de residência e/ou do sistema de saúde onde a residência acontece. Ou seja, invariavelmente associado com outros desafios que podem ou não ser modificados.
A literatura destaca que essa transformação é marcada por desafios intensos, que exigem resiliência, reflexão e suporte institucional, resultando em crescimento pessoal e profissional ao longo do treinamento.[1][2][3][4]
Por ser uma fase tão complexa, um sofrimento inevitável, é importante estarmos alertas as adaptações e mudanças que podemos fazer para suavizar essa trajetória. Tanto o PRM quanto os próprios médicos residentes. É uma responsabilidade compartilhada.
Por esse motivo criamos no nosso PRM um momento chave:
Uma Coisa Boa
Enquanto é importante um momento onde se possa ser ouvido, e ter sua dor validada por um grupo de iguais, onde temos abertura para falar das dificuldades do dia a dia da residência, adaptação a novos cenários, dificuldade se ser reconhecido pelas outras especialidades e situações de injúria moral… Estávamos mantendo um foco muito grande somente no negativo.
A evidência mostra que vieses cognitivos negativos — focar predominantemente em aspectos negativos — estão fortemente associados ao desenvolvimento e manutenção da depressão.[5] Médicos residentes enfrentam taxas de depressão que aumentam de 5 a 6 vezes durante a residência, com aproximadamente 25-30% apresentando sintomas depressivos em qualquer momento do treinamento.[6] Fatores como longas jornadas de trabalho, estresse crônico e exposição a eventos moralmente desafiadores contribuem para esse risco.[7][6][8]
Estratégias adaptativas de regulação emocional, como a reavaliação cognitiva (cognitive reappraisal), estão associadas a menores níveis de burnout e maior realização pessoal entre residentes, mesmo após controlar fatores de carga de trabalho.[9][10][11][12]
Mas não se trata de apenas ter pensamento positivo. E nem mesmo de aceitar de forma acomodada e resignada o que está errado.
- Não é sobre aceitar passivamente situações ruins
- Não é sobre romantizar sofrimento
- Não é sobre “aguentar tudo calado”
- Não é sobre positividade tóxica
E sim:
- Reconhecer limites estruturais
- Entender o tempo das mudanças
- Desenvolver recursos internos para navegar a complexidade
A capacidade de reconhecer e valorizar experiências positivas não significa negar problemas sistêmicos ou aceitar passivamente situações ruins — pelo contrário, trata-se de desenvolver resiliência psicológica para navegar efetivamente por desafios complexos que frequentemente não podem ser corrigidos rapidamente ou mesmo nunca.[13][14]
A injúria moral em medicina de emergência ocorre quando profissionais enfrentam situações que violam seus valores éticos fundamentais, frequentemente devido a limitações organizacionais, escassez de recursos ou falhas sistêmicas.[15][16][17][18][19] Reconhecer momentos positivos não invalida essas experiências difíceis; ao invés disso, práticas como “Três Coisas Boas” ajudam a equilibrar o processamento emocional, reduzindo o risco de ruminar exclusivamente sobre aspectos negativos — um padrão cognitivo que aumenta vulnerabilidade à depressão.[5][20][21][22]
Nós criamos esse momento, adaptado desse estudo. O que fazemos é aproveitar os momentos inicias do treinamento de simulação para acolhimento. Iniciamos o dia cada um escrevendo no nosso mural do padlet um evento bom. E depois falamos sobre as dificuldades e casos interessantes dos últimas.
Então: não se trata de resiliência como conformismo, mas como capacidade de manter saúde mental enquanto se trabalha ativamente para mudanças necessárias. Intervenções de gratidão demonstram redução significativa em sintomas depressivos e estresse percebido entre profissionais de saúde, justamente porque promovem regulação emocional adaptativa sem negar a realidade dos desafios.[20][21][22][23]
Três Coisas Boas: Uma Prática de Bem-Estar para Residentes de Medicina de Emergência
O que é a prática “Três Coisas Boas”?
A prática “Três Coisas Boas” (Three Good Things) é uma intervenção breve de psicologia positiva desenvolvida para profissionais de saúde que enfrentam altos níveis de estresse e risco de burnout. O exercício consiste em refletir diariamente sobre três aspectos positivos que aconteceram durante o dia e identificar qual foi o seu papel pessoal em cada um deles.
Como fazer?
Ao final de cada dia, reserve alguns minutos (geralmente 5-10 minutos) para responder a duas perguntas simples:
1. Quais foram as três coisas que deram certo hoje?
2. Qual foi o meu papel em fazer com que cada uma delas acontecesse?
Você pode escrever suas respostas em um caderno, no celular, ou em qualquer formato que funcione melhor para você. O importante é a consistência da prática, não o formato. A maioria dos estudos utiliza períodos de 14 a 15 dias consecutivos, mas você pode adaptar conforme sua necessidade.
O que escrever?
As “coisas boas” podem ser grandes ou pequenas, profissionais ou pessoais. Estudos com profissionais de saúde mostram que as respostas mais comuns incluem:
– Ter um bom dia no trabalho: atendimentos que correram bem, procedimentos bem-sucedidos, aprendizados importantes, reconhecimento de colegas ou pacientes
– Relacionamentos de apoio: conversas significativas com colegas, momentos de trabalho em equipe, apoio de supervisores, tempo de qualidade com amigos ou família
– Tempo para si mesmo: momentos de autocuidado, atividades prazerosas, descanso adequado, hobbies
Pesquisas recentes mostram que focar em relacionamentos próximos e pessoas valiosas em sua vida está associado aos maiores benefícios da prática.
Por que isso funciona?
A residência em medicina de emergência é desafiadora. Você enfrenta longas jornadas, decisões de alta pressão, exposição a traumas e situações moralmente complexas. É natural que sua mente foque nos problemas — afinal, identificar e resolver problemas é parte essencial do seu trabalho.
No entanto, focar exclusivamente nos aspectos negativos pode aumentar o risco de depressão e burnout. Isso não significa negar os problemas reais ou aceitar passivamente situações ruins. Significa reconhecer que, apesar das dificuldades, existem também muitos momentos bons, e que é importante ajudar sua mente a buscar e valorizar essas experiências.
A prática “Três Coisas Boas” funciona como um exercício de regulação emocional. Ela ajuda a equilibrar o processamento mental, reduzindo a tendência de ruminar apenas sobre aspectos negativos — um padrão cognitivo fortemente associado à depressão. Ao mesmo tempo, fortalece emoções positivas, promove gratidão e aumenta a resiliência psicológica necessária para navegar os desafios complexos da medicina de emergência.
O que diz a evidência científica?
Estudos com profissionais de saúde demonstram que a prática “Três Coisas Boas” está associada a:
– Redução da exaustão emocional (componente central do burnout)
– Diminuição de sintomas depressivos
– Aumento da felicidade subjetiva
– Melhora no equilíbrio trabalho-vida pessoal
Um estudo prospectivo com 228 profissionais de saúde mostrou melhorias significativas em exaustão emocional, sintomas depressivos e felicidade que se mantiveram por até 12 meses após uma intervenção de apenas 15 dias. Os efeitos foram ainda maiores entre participantes que apresentavam níveis preocupantes de burnout no início do estudo.
É importante notar que os estudos variam em qualidade metodológica, e alguns mostram efeitos modestos ou de curta duração. A prática não é uma solução mágica, mas sim uma ferramenta de autocuidado que pode ser integrada à sua rotina como parte de uma estratégia mais ampla de bem-estar.
Comece hoje
Experimente por 14 dias consecutivos. Ao final de cada dia, escreva três coisas que deram certo e reflita sobre seu papel em cada uma delas. Seja flexível quanto ao formato — o que importa é a consistência da prática e a reflexão genuína sobre os aspectos positivos do seu dia.
Lembre-se: cuidar de si mesmo não é egoísmo. É uma necessidade para que você possa continuar cuidando dos outros.
References
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