Estudando com eficiência. Conceitos e filosofia que embasam o PRM de Medicina de Emergência da SES/DF.

Metas de Aprendizagem
Quando for estudar cada bloco de conhecimento, trace uma meta de aprendizado. Quanto mais concisa e direta, melhor.
Exemplo: Bloco Cardiologia. SCA.
“Meta: entender a fisiopatologia da SCA”
“Meta: Entender o diagnóstico de SCA”
A construção de metas de aprendizado é um elemento central para um desenvolvimento profissional consistente e significativo. Diferente de metas voltadas apenas para resultados externos, metas de aprendizado partem da reflexão sobre o que precisa ser compreendido, desenvolvido ou consolidado ao longo de um período formativo.
Criar suas próprias metas começa com uma pergunta simples e poderosa: “o que eu quero ser capaz de entender, explicar ou fazer com mais segurança ao final deste ciclo?” Ao formular metas dessa forma, o aprendizado deixa de ser passivo e passa a ser intencional, guiado por curiosidade, reflexão e compromisso com o próprio crescimento.
Conforme demonstrado no estudo de Bai e colegas (The role of achievement goals in the relationship between academic resilience and academic engagement: evidence from Chinese college students), metas de aprendizado — também chamadas de mastery goals — atuam como mediadores positivos na relação entre resiliência e engajamento acadêmico, favorecendo dedicação, persistência e envolvimento profundo com o conteúdo, em vez de foco apenas em desempenho externo.
Metas de aprendizado fortalecem a autonomia, pois colocam o aluno como agente ativo do seu processo formativo. Elas também favorecem o engajamento, ao dar sentido ao estudo e orientar escolhas, e aumentam a resiliência, uma vez que dificuldades e erros passam a ser compreendidos como parte natural do desenvolvimento, e não como falhas pessoais.
Ao focar no processo de aprender — e não apenas em resultados finais — as metas de aprendizado permitem acompanhar a própria evolução, reconhecer avanços e identificar com clareza os próximos passos. Esse tipo de meta sustenta um aprendizado mais profundo, crítico e duradouro, essencial para a formação de profissionais capazes de tomar decisões fundamentadas ao longo da carreira.
Resiliência
Pratique resiliência.
A resiliência é uma competência central no processo de aprendizagem, pois representa a capacidade de lidar com dificuldades, persistir diante de desafios e manter o envolvimento mesmo quando o progresso é lento ou exige esforço contínuo. Mais do que uma característica individual fixa, a resiliência é um processo que pode ser desenvolvido ao longo da formação.
O estudo de Bai et al. (2025), publicado na Frontiers in Psychology (The role of achievement goals in the relationship between academic resilience and academic engagement), demonstra que a resiliência está diretamente associada ao engajamento sustentado, e que esse efeito ocorre principalmente quando o aprendiz adota metas de aprendizado(mastery goals), em vez de metas centradas apenas em desempenho ou comparação. Segundo os autores, pessoas resilientes tendem a se engajar mais profundamente quando seu foco está em aprender, compreender e melhorar, e não apenas em evitar erros ou alcançar resultados externos.
Desenvolver resiliência começa por reformular a relação com a dificuldade. Em vez de interpretar obstáculos como sinal de incapacidade, o aprendiz resiliente passa a reconhecê-los como parte natural do processo de desenvolvimento. Esse deslocamento cognitivo reduz a evitação, favorece a persistência e sustenta a motivação ao longo do tempo.
Outro elemento fundamental para a construção da resiliência é a definição de metas de aprendizado claras e realistas. Ao estabelecer objetivos focados no que precisa ser compreendido ou desenvolvido, o aluno passa a perceber progresso mesmo em contextos desafiadores. O estudo de Bai et al. mostra que esse tipo de meta atua como um mediador positivo: a resiliência favorece o engajamento porque o aprendiz sabe por que está se esforçando e o que está tentando dominar.
A resiliência também se fortalece por meio da autorregulação e da reflexão contínua. Revisar o que foi aprendido, reconhecer avanços parciais e identificar próximos passos ajuda a manter o senso de competência e reduz a sensação de estagnação. Esse processo sustenta o engajamento mesmo diante de conteúdos complexos ou de alta exigência cognitiva.
Assim, a resiliência não é apenas “aguentar pressão”, mas manter propósito, curiosidade e compromisso com o aprendizado ao longo do tempo.
Você como protagonista do seu aprendizado
Aprender de forma profunda e duradoura exige mais do que receber informações ou cumprir etapas formais de um curso. A aprendizagem mais consistente acontece quando você assume um papel ativo, tornando-se protagonista do seu próprio processo formativo. Isso significa deixar de ser apenas receptor de conteúdos e passar a ser autor do seu aprendizado.
A revisão integrativa de Cadorin et al. (2014), publicada na Frontiers in Psychology, demonstra que a aprendizagem significativa em profissionais da saúde ocorre quando o aprendiz participa ativamente da construção do conhecimento, conectando novas informações aos seus saberes prévios, às suas experiências e às suas necessidades reais de desenvolvimento. Segundo os autores, esse tipo de aprendizagem gera mudanças duradouras na forma de pensar, compreender e agir, o que não acontece quando o aprendizado é apenas mecânico ou baseado em memorização.
Ser protagonista do próprio aprendizado é importante porque ninguém aprende de forma significativa por você. Professores, preceptores e instituições podem oferecer conteúdos, cenários e apoio, mas a integração do conhecimento só acontece quando você se envolve ativamente, reflete sobre o que aprende e atribui sentido àquilo que estuda. A literatura mostra que esse protagonismo favorece maior autonomia, pensamento crítico, motivação e capacidade de adaptação a contextos complexos.
Para desenvolver esse papel ativo, alguns comportamentos são fundamentais. Primeiro, assuma responsabilidade pelo seu aprendizado: questione, identifique suas lacunas, estabeleça metas claras de aprendizado e acompanhe sua própria evolução. Segundo, conecte teoria e experiência, refletindo sobre o que aprende e buscando compreender o “porquê” das decisões e dos conceitos, e não apenas o “como”. Terceiro, valorize a reflexão, reconhecendo erros e dificuldades como parte natural do processo de desenvolvimento, e utilizando-os como oportunidades de crescimento.
Além disso, comportar-se como protagonista implica participar ativamente dos espaços formativos, dialogar, pedir feedback, revisar suas estratégias de estudo e adaptar seus objetivos conforme avança. A aprendizagem significativa, como destacam Cadorin et al., é um processo contínuo de construção e transformação, sustentado pela curiosidade, pela reflexão crítica e pelo compromisso pessoal com o próprio desenvolvimento.
Em síntese, quando você se coloca no centro do seu processo formativo, o aprendizado deixa de ser apenas uma exigência externa e passa a ser um projeto pessoal de crescimento. Esse protagonismo é o que permite transformar conhecimento em competência real, promovendo uma formação mais profunda, consciente e sustentável ao longo da sua trajetória profissional.
Especialmente importante é a ideia de que autodireção não significa aprender sozinho, mas aprender com responsabilidade e consciência.
Reflexão: porque refletir sobre a prática faz parte do seu aprendizado
Na formação em saúde, aprender não significa apenas acumular conhecimento técnico ou repetir procedimentos. A aprendizagem mais profunda acontece quando você para, revisita a experiência e pensa sobre ela: o que fez, como decidiu, o que funcionou, o que poderia ter sido diferente e o que ainda precisa aprender.
Essa ideia é amplamente discutida no artigo “Reflective Practice in Healthcare Education: An Umbrella Review”, uma revisão abrangente publicada na Frontiers in Psychology, na qual os autores analisam múltiplas revisões sobre prática reflexiva na educação em saúde. Nesse trabalho, os autores mostram que refletir sobre a própria prática está associado a maior autoconsciência, melhor integração entre teoria e experiência, desenvolvimento do julgamento profissional e aprendizagem mais duradoura.
Segundo os autores do artigo, a reflexão permite transformar experiências vividas em conhecimento estruturado. Sem esse processo, muitas vivências permanecem isoladas, não se conectam entre si e têm menor impacto no desenvolvimento profissional. Refletir é o que permite sair do “fazer automático” e avançar para um aprendizado consciente e intencional.
Refletir também significa olhar para suas próprias habilidades, reconhecer com honestidade o que você já faz bem e identificar o que ainda precisa aprender. O artigo destaca que esse processo fortalece a autorregulação do aprendizado: ao compreender como você pensa, decide e reage às situações, você se torna mais capaz de ajustar suas estratégias de estudo e de desenvolvimento ao longo da residência.
Em síntese, refletir sobre a prática, sobre suas habilidades e sobre o que ainda precisa aprender não é um complemento opcional da formação. Como demonstrado em Reflective Practice in Healthcare Education: An Umbrella Review, trata-se de um componente central da aprendizagem em saúde. Ao responder aos formulários de reflexão e guardar seus escritos, você assume um papel ativo no próprio desenvolvimento e constrói, de forma consciente, o profissional que deseja se tornar.
Por isso, convidamos você a responder os formulários da residência com sinceridade e reflexão. Eles não têm caráter avaliativo nem punitivo, e não são usados para julgamento por parte da supervisão. Esses registros existem para apoiar seu processo de aprendizagem: ajudam o programa a entender o que precisa ser melhor ensinado e aprimorado, e, principalmente, estimulam você a refletir sobre suas experiências, reconhecer suas competências, identificar o que ainda precisa desenvolver e construir metas de aprendizado mais claras. Ao fazer isso, você se torna protagonista do seu próprio aprendizado, mantendo-se engajado, motivado e consciente do seu crescimento ao longo da residência.
Como o adulto aprende? -> Exemplo prático do modelo multi-teorias
O residente é responsável por avaliar um paciente de forma autônoma, realizando anamnese, exame físico, formulando hipóteses diagnósticas e propondo uma conduta inicial, antes da discussão com o preceptor.
Fase 1 – Dissonância
A aprendizagem começa quando o residente examina o paciente sozinho.
Nesse momento, surge a dissonância cognitiva: o desconforto de ter que tomar decisões reais, integrar dados clínicos e assumir responsabilidade pelo raciocínio diagnóstico e terapêutico. Esse desconforto é essencial, pois é diferente de situações em que outra pessoa já entrega o diagnóstico ou a conduta pronta.
O residente percebe claramente:
- o que sabe
- o que não sabe
- onde estão suas lacunas
Essa tensão entre conhecimento prévio e a necessidade de decidir ativa o aprendizado. Sem essa dissonância, não há motivação genuína para aprender.
Fase 2 – Refinamento
Diante da incerteza, o residente começa a organizar o raciocínio.
Ele levanta hipóteses diagnósticas, pondera possibilidades, revisa mentalmente critérios clínicos e pensa em condutas possíveis. Esse processo pode envolver:
- busca de informações
- recordação de casos semelhantes
- discussão inicial com colegas
Aqui, o residente não busca a resposta pronta, mas tenta construir uma explicação coerente para o quadro apresentado.
Fase 3 – Organização
O residente então estrutura seu pensamento em uma narrativa clínica lógica:
- queixa → achados → hipóteses → decisão
Ele passa a organizar os dados em esquemas mentais mais sólidos, conectando sinais, sintomas e exames à tomada de decisão. Esse é o momento em que o raciocínio clínico se consolida como processo, não como repetição de fórmulas.
Fase 4 – Feedback
O preceptor entra após o residente ter se posicionado.
O papel do preceptor aqui não é substituir a decisão, mas:
- ouvir o raciocínio do residente
- identificar acertos e fragilidades
- corrigir quando necessário
- ampliar a reflexão
O feedback funciona como um ajuste fino: corrige erros, valida boas decisões e ajuda o residente a entender por que determinada conduta é mais adequada. Esse momento é essencial para transformar tentativa em aprendizado seguro.
Fase 5 – Consolidação
Após a discussão, o residente reflete:
- O que eu faria igual da próxima vez?
- O que faria diferente?
- Que sinais passaram despercebidos?
Essa reflexão consolida o aprendizado e permite que a experiência seja integrada ao repertório clínico futuro. A decisão deixa de ser apenas “daquele caso” e passa a compor o desenvolvimento do raciocínio profissional.
Ensinar como expressão de domínio avançado do conhecimento
Ensinar não é apenas transmitir informações. Ensinar é uma das formas mais avançadas de demonstrar domínio sobre um conhecimento. Quando alguém é capaz de explicar um tema com clareza, responder perguntas, ajustar a explicação ao outro e sustentar o raciocínio, isso indica que o conhecimento não está apenas memorizado, mas organizado, integrado e compreendido em profundidade.
A literatura educacional mostra que o ato de preparar-se para ensinar e ensinar de fato reforça o próprio aprendizado. No artigo “Interactivity: A Potential Determinant of Learning by Preparing to Teach and Teaching”, Kobayashi demonstra que aprender com a expectativa de ensinar, especialmente em contextos face a face e interativos, gera maior aprofundamento do conhecimento do que estudar apenas para si mesmo ou explicar de forma indireta. Isso ocorre porque o ensino exige seleção, organização, elaboração e integração das informações, além de estimular reflexão sobre o próprio entendimento.
Ensinar em contextos interativos — com possibilidade de perguntas, feedback e ajuste da explicação — também aumenta a motivação para estudar com mais cuidado e intencionalidade. Saber que será necessário explicar para outra pessoa leva o aprendiz a antecipar dúvidas, identificar lacunas no próprio conhecimento e buscar maior coerência no raciocínio. Esse processo favorece aprendizado significativo, reflexão sobre o que se sabe e sobre o que ainda precisa ser desenvolvido, e consolidação do conhecimento de forma mais duradoura.
Por esse motivo, residentes dos anos mais avançados são convidados a ensinar. Isso não ocorre como forma de punição ou sobrecarga, mas como reconhecimento de que ensinar é uma habilidade complexa e avançada, que pressupõe maturidade cognitiva, autorregulação e responsabilidade sobre o próprio aprendizado. Ao ensinar, o residente não apenas demonstra domínio do conteúdo, mas também exercita competências fundamentais, como comunicação, organização do pensamento e reflexão crítica sobre o próprio conhecimento.
Ensinar é, portanto, uma oportunidade. Uma oportunidade de refletir sobre o que já se domina, de identificar com clareza o que ainda precisa ser aprendido, de desenhar metas de aprendizado mais precisas e de estudar com propósito. Ao assumir o papel de quem ensina, o residente se coloca em um nível mais profundo de envolvimento com o conhecimento e fortalece sua própria formação.
Em síntese, como demonstrado por Kobayashi, ensinar e preparar-se para ensinar não apenas evidenciam domínio avançado, mas também são estratégias potentes de aprendizagem. Quando compreendido dessa forma, o ensino deixa de ser visto como obrigação e passa a ser reconhecido como um dos caminhos mais eficazes para aprender melhor, com mais sentido e profundidade.
Cuidar da mente também faz parte do aprendizado
A formação em saúde é intensa, exigente e emocionalmente desafiadora. Para aprender bem e se desenvolver de forma sustentável, não basta apenas estudar mais ou acumular experiências: é essencial cuidar da própria saúde mental e das condições internas que favorecem o foco, a reflexão e a motivação.
Um aspecto importante da saúde mental é a capacidade de manter a atenção no momento presente e de responder de forma equilibrada às experiências estressantes. Estudos recentes, como o artigo Self-compassion and mindfulness in relation to mind wandering: indirect associations mediated by negative affect (Umeda & Ohtsuki, 2025), mostram que níveis mais altos de autocompaixão e de mindfulness estão associados a menor probabilidade de “mind wandering”, ou seja, menos tendência da mente a se dispersar em pensamentos não relacionados à tarefa em curso. Segundo os autores, tanto a autocompaixão quanto a atenção plena estão negativamente correlacionadas com o afeto negativo e com a divagação da mente, e isso ocorre em parte porque reduzem emoções negativas que tendem a distrair a atenção e prejudicar a concentração.
A autocompaixão — tratar-se com gentileza ao experimentar falhas, dificuldades ou imperfeições — é particularmente relevante para residentes, pois reconhece a exigência emocional da prática médica. O estudo de Umeda & Ohtsuki sugere que a autocompaixão pode estar mais fortemente associada à redução de afeto negativo do que a própria disposição para mindfulness, o que a torna especialmente valiosa como estratégia para manter o foco e o equilíbrio psicológico mesmo em situações estressantes.
Práticas de mindfulness (atenção plena), por sua vez, desenvolvem a capacidade de observar pensamentos e sensações sem julgamento e de retornar a atenção ao momento presente, o que é fundamental para manter o foco durante estudo, reflexão e prática clínica. A combinação de atenção plena e autocompaixão favorece não apenas a redução de pensamentos intrusivos e de ruminação, mas também a capacidade de autorregulação emocional, permitindo que o residente responda com mais clareza às demandas cognitivas e emocionais do ambiente de treinamento.
Nesse contexto, buscar terapia ou acompanhamento psicológico não é sinal de fragilidade, mas de responsabilidade com o próprio processo de formação. A psicoterapia oferece um espaço seguro para organizar emoções, explorar padrões de pensamento e desenvolver estratégias que promovam resiliência emocional e cognição eficaz.
Além disso, há comportamentos práticos que impactam diretamente sua saúde mental e capacidade de aprender:
- Disciplina no estudo: agendar horários específicos e rotinas de estudo ajuda a reduzir a dispersão mental e cria um contexto previsível para o engajamento cognitivo.
- Sono adequado: o sono não é um “tempo perdido”; ele é um período no qual o cérebro processa, consolida e fixa novas informações. Sem sono suficiente e de qualidade, a capacidade de aprender, tomar decisões e manter atenção se deteriora.
- Atividade física regular: o exercício melhora o funcionamento cognitivo, regula o estresse, reduz ansiedade e protege a saúde mental de forma generalizada.
- Uso consciente de dispositivos digitais: o excesso de celular e de redes sociais fragmenta a atenção e compromete a profundidade do estudo e da reflexão; estabelecer limites para esses estímulos melhora foco e produtividade.
Cuidar de si mesmo — por meio de autocompaixão, atenção plena, terapia quando necessário, sono regulado, agenda de estudos e hábitos de vida saudáveis — é uma estratégia integrada para manter a motivação e a performance no estudo. É importante reconhecer que a saúde mental, o foco de atenção e a capacidade de refletir não ocorrem automaticamente, mas são condições que podem e devem ser cultivadas intencionalmente ao longo da residência.
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